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domingo, 18 de maio de 2014

CRÔNICA: “Frei Damião de Bozzano”


Eu não me lembro exatamente o ano, só me recordo que eu era garoto de calças curtas, na minha cidade de Sanharó. Estava acontecendo as missões do frei Damião de Bozzano, e meus pais me ordenaram a ir me confessar com o santo padre. Se não fosse a fama de durão que frei Damião possuía, não haveria nenhum problema em me confessar, já fui educado no catolicismo e a confissão sempre esteve presente em minha formação religiosa. Acontece, porém, que o comentário sobre sua impaciência e intolerância a certos pecados levava pânico às pessoas, principalmente às crianças, que fantasiarem a figura de um homem bravo, o qual poderia castigar seriamente o pecador.
Mas ordem é ordem. Meus pais mandaram, eu teria que obedecer, pois assim funcionava a hierarquia familiar à época. Pois bem! Quando eu me encontrava na fila da confissão, aparentemente nervoso, minha amiga Marieta, de Mãezinha, percebendo a minha aflição, aproximou-se de mim e procurou me acalmar, orientando-me a começar confessando os meus pecados mais simples, tipo arengar com meus irmãos, mentir, desobedecer aos pais, e outras traquinagens próprias de crianças, mas com pouca relevância, tratando-se de grau de desrespeito às leis divinas. Quando o frei capuchinho baixasse a cabeça, alertou-me a amiga, seria o sinal de que ele estaria cochilando, e aí sim, seria o momento ideal para contar aqueles pecados mais cabeludos, já que ele não escutaria nada, pois estava dormindo.
As orientações da minha amiga Marieta me deixaram mais calmo. Quando chegou a minha vez de me ajoelhar no confessionário, eu já tinha preparado todo um organograma de pecados, desde os mais simples até àqueles que não poderiam, de forma alguma, ser escutados pelo frei. Foi então que eu ouvi aquela voz fininha, mas estridente e autoritária, dizendo: “Conte seus pecados”. Prontamente comecei a elencar, um a um, de forma compassada e com a voz suave, já facilitando a antecipação do santo sono, os meus leves desvios de conduta infantil. Quando frei Damião baixou a cabeça, eu pensei: “É agora!”. Desenterrei pecados que eu nem me lembrava mais de tê-los cometidos, mas que o calor da emoção os fez ressurgir com todo arrependimento e desejo de serem perdoados. Foi quando o frei, num súbito despertar, começou a me dar o maior “carão”, em voz alta, para que todos ouvissem. Eu, morrendo de vergonha, procurei explicação buscando a amiga Marieta, que para minha surpresa estava já desmaiando de tanto rir, sentada num banco da igreja. Foi ali que eu percebi a roubada que eu tinha me metido. Pensei comigo: “Filha da mãe; eu te pego depois!”. Mas a coisa não terminou aí! Depois do carão, ele me perguntou: “Você anda com animais?”. Respondi-lhe afirmativamente. Então me fez a segunda pergunta: “Quantas vezes você já andou com animais?”. Disse-lhe que sempre que ia para fazenda do meu pai eu ia em cima de um. Meus amigos, esse frei me deu um grito, dizendo que não era esse tipo de andar a que ele se referia; que eu teria entendido muito bem o propósito de sua pergunta, e mais um monte de coisas, as quais no momento eu não me recordo. Foi quando eu compreendi, de fato, a intenção de sua pergunta, e lhe disse nervoso: “Não, dessa forma não! Desse jeito, não!”.
Dessa história eu tirei algumas lições: a primeira é que em questões religiosas é melhor não envolver mais ninguém, além de você e o padre; a segunda é que frei Damião era um velhinho ruim de sono; a terceira é que se faz necessário antes de tudo analisar todo contexto, para se definir o sentido empregado a uma palavra dentro de uma determinada frase; a quarta é que o Nordeste do Brasil nunca teve um representante religioso com um conhecimento tão profundo e nível cultural, antropológico, geográfico, político, econômico e “sexual” do seu povo quanto o grande e inesquecível FREI DAMIÃO DE BOZZANO.
(((Robson Aquino)))

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